Sete em cada dez mulheres dizem que já sofreram assédio, mostra pesquisa apoiada pela FGVW

Ruas e espaços públicos são os lugares onde mais ocorre esse tipo de situação

O Instituto Cidades Sustentáveis e a Ipsos-Ipec, em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen, lançaram, neste mês de março, a Pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres. O levantamento mostra a percepção da população em dez capitais brasileiras sobre temas como assédio e divisão de tarefas domésticas entre homens e mulheres.  

O trabalho entrevistou 3.500 pessoas de forma online, nas seguintes cidades: Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Considerando o total da amostra, 71% das respondentes disseram que já sofreram algum tipo de assédio em pelo menos um dos seis locais pesquisados.  

Ruas e espaços públicos são os lugares onde mais ocorre esse tipo de situação. Em seguida, aparecem o transporte público e o ambiente de trabalho. Os números apresentam variações de acordo com a capital, mas a proporção de mulheres que sofreu assédio permanece alta e estável nas dez cidades.  

Soluções 

A pesquisa abordou também as ações e medidas prioritárias que devem ser adotadas para combater a violência contra as mulheres, na percepção dos respondentes. No total da amostra, aumentar as penas contra os agressores aparece em primeiro lugar, seguida pela ampliação dos serviços de proteção às vítimas em todas as regiões da cidade.  

“Podemos e devemos fazer muito mais para enfrentar a violência contra a mulher. Além de punir os infratores, ampliar os canais de denúncia e promover campanhas, precisamos criar políticas públicas efetivas, que de fato promovam uma mudança estrutural na sociedade”, diz Jorge Abrahão, coordenador-geral do Instituto Cidades Sustentáveis.  

Violência e a mobilidade social 

Sob a perspectiva da mobilidade social, eixo central de atuação da Fundação Grupo Volkswagen, o enfrentamento à violência contra a mulher é essencial para ampliar oportunidades e reduzir desigualdades.  

Para Vitor Hugo Neia, diretor-geral da instituição, o debate precisa considerar os impactos dessas violências na trajetória dessas mulheres. “A mobilidade social feminina nas grandes cidades ainda esbarra em barreiras estruturais que muitas vezes permanecem invisíveis. Quando sete em cada dez mulheres relatam já ter sofrido assédio, especialmente em espaços públicos e no transporte, que são justamente os caminhos para o estudo e o trabalho, estamos diante de um obstáculo concreto à autonomia econômica.” 

Soma-se a isso a sobrecarga do trabalho doméstico e a vivência de diferentes formas de violência, que limitam o tempo, a segurança e as oportunidades de ascensão.  

“Enfrentar essas desigualdades não é apenas uma necessidade de gênero, é uma agenda de desenvolvimento, já que essas barreiras estruturais limitam a autonomia econômica, restringem oportunidades e fragilizam trajetórias de ascensão, fatores que vão na contramão da mobilidade social sustentável.” 

Divisão de tarefas domésticas 

A pesquisa apurou ainda como homens e mulheres percebem a divisão de tarefas domésticas. No total da amostra, quatro em cada dez respondentes dizem que os afazeres de casa são responsabilidade de todos, mas as mulheres fazem a maior parte. 

Os números variam pouco entre as capitais, mas a percepção muda de forma significativa quando se observa o recorte por gênero: 32% dos homens reconhecem que as mulheres fazem a maior parte das tarefas, embora a responsabilidade seja de ambos; entre elas, esse percentual sobe para 44%. Ainda, 47% dos homens acham que as atividades domésticas são divididas igualmente, percentual que cai para 28% entre as mulheres.    

Sobre a pesquisa  

Pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres 2026 é uma realização da Ipsos-Ipec e do Instituto Cidades Sustentáveis, no âmbito do Programa Cidades Sustentáveis, em parceria com o Sesc-SP e a Fundação Grupo Volkswagen.  

O cofinanciamento é da União Europeia, como parte do “Programa de fortalecimento da sociedade civil e dos governos locais para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”. O projeto tem como parceiros institucionais a Frente Nacional dos Prefeitos e Prefeitas (FNP) e a Estratégia ODS. 

O objetivo do levantamento é verificar a percepção da população residente em dez capitais brasileiras sobre temas relevantes relacionados às questões de gênero. Ao todo, foram realizadas 3.500 entrevistas de forma online, distribuídas entre as cidades de Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia, com controle de cotas pelas variáveis sexo, idade, classe social e ocupação.  

O universo inclui pessoas de 16 anos ou mais, das classes ABCDE, que moram nas capitais de interesse há pelo menos 2 anos. O trabalho de campo foi realizado de 2 a 27 de dezembro de 2025. O nível de confiança é de 95% e a margem de erro para o total da amostra é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Para os resultados desagregados por capital, a margem de erro pode variar de 4 a 6 pontos percentuais, de acordo com a cidade.