A Fundação Grupo Volkswagen, em parceria com o Instituto Cidades Sustentáveis e a Ipsos-Ipec, lançaram neste mês de março, a Pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres. O levantamento apresenta a percepção da população de dez capitais brasileiras sobre temas como assédio e divisão de tarefas domésticas entre homens e mulheres.
O estudo ouviu 3.500 pessoas de forma online nas cidades de Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Considerando o total da amostra, 71% das mulheres afirmaram já ter sofrido algum tipo de assédio em pelo menos um dos seis contextos investigados.
Ruas e espaços públicos aparecem como os principais locais de ocorrência desse tipo de situação. Em seguida, destacam-se o transporte público e o ambiente de trabalho. Embora haja variações entre as capitais, a incidência de assédio se mantém elevada e relativamente homogênea entre as cidades pesquisadas.
Evento de Lançamento
Os resultados da Pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres foram apresentados no dia 5 de março, em evento presencial realizado no Sesc 14 Bis. A iniciativa recebeu cofinanciamento da União Europeia.
Durante o encontro, foi destacado um dos principais dados do levantamento: sete em cada dez mulheres relataram já ter sofrido assédio nas maiores capitais do país, evidenciando a dimensão e a transversalidade do problema no contexto urbano brasileiro.

O evento reuniu especialistas, representantes do poder público e organizações da sociedade civil para debater os desafios enfrentados pelas mulheres nas cidades, com foco em temas como segurança, desigualdade de gênero e seus impactos na vida cotidiana e nas oportunidades de desenvolvimento.
O painel contou com a participação de Naiza Bezerra, coordenadora de Políticas para Mulheres na Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo; Fabíola Sucasas, promotora de Justiça coordenadora do Núcleo de Inclusão Social – Direitos Humanos do Ministério Público de São Paulo; e Sergio Barbosa, filósofo e coordenador do Programa de Responsabilização de homens autores de violência contra a mulher do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde.
As discussões reforçaram a importância de utilizar evidências para qualificar o debate público e orientar a formulação de políticas e iniciativas mais efetivas voltadas à construção de cidades mais seguras, inclusivas e equitativas para as mulheres.
Soluções
A pesquisa aborda também as ações e medidas prioritárias que devem ser adotadas para combater a violência contra as mulheres, na percepção dos respondentes. No total da amostra, aumentar as penas contra os agressores aparece em primeiro lugar, seguida pela ampliação dos serviços de proteção às vítimas em todas as regiões da cidade.
“Podemos e devemos fazer muito mais para enfrentar a violência contra a mulher. Além de punir os infratores, ampliar os canais de denúncia e promover campanhas, precisamos criar políticas públicas efetivas, que de fato promovam uma mudança estrutural na sociedade”, diz Jorge Abrahão, coordenador-geral do Instituto Cidades Sustentáveis.
Violência e a Mobilidade Social
Sob a perspectiva da mobilidade social, eixo central de atuação da Fundação Grupo Volkswagen, o enfrentamento à violência contra a mulher é essencial para ampliar oportunidades e reduzir desigualdades.
Para Vitor Hugo Neia, diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen, o debate precisa considerar os impactos dessas violências na trajetória dessas mulheres. “A mobilidade social feminina nas grandes cidades ainda esbarra em barreiras estruturais que muitas vezes permanecem invisíveis. Quando sete em cada dez mulheres relatam já ter sofrido assédio, especialmente em espaços públicos e no transporte, que são justamente os caminhos para o estudo e o trabalho, estamos diante de um obstáculo concreto à autonomia econômica.”
Soma-se a isso a sobrecarga do trabalho doméstico e a vivência de diferentes formas de violência, que limitam o tempo, a segurança e as oportunidades de ascensão.
“Enfrentar essas desigualdades não é apenas uma necessidade de gênero, é uma agenda de desenvolvimento, já que essas barreiras estruturais limitam a autonomia econômica, restringem oportunidades e fragilizam trajetórias de ascensão, fatores que vão na contramão da mobilidade social sustentável.”
Divisão de Tarefas Domésticas
A pesquisa apurou ainda como homens e mulheres percebem a divisão de tarefas domésticas. No total da amostra, quatro em cada dez respondentes dizem que os afazeres de casa são responsabilidade de todos, mas as mulheres fazem a maior parte.
Os números variam pouco entre as capitais, mas a percepção muda de forma significativa quando se observa o recorte por gênero: 32% dos homens reconhecem que as mulheres fazem a maior parte das tarefas, embora a responsabilidade seja de ambos; entre elas, esse percentual sobe para 44%. Ainda, 47% dos homens acham que as atividades domésticas são divididas igualmente, percentual que cai para 28% entre as mulheres.
Sobre a pesquisa
A Pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres 2026 é uma realização da Ipsos-Ipec e do Instituto Cidades Sustentáveis, no âmbito do Programa Cidades Sustentáveis, em parceria com o Sesc-SP e a Fundação Grupo Volkswagen.
O cofinanciamento é da União Europeia, como parte do “Programa de fortalecimento da sociedade civil e dos governos locais para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”. O projeto tem como parceiros institucionais a Frente Nacional dos Prefeitos e Prefeitas (FNP) e a Estratégia ODS.
O objetivo do levantamento é verificar a percepção da população residente em dez capitais brasileiras sobre temas relevantes relacionados às questões de gênero. Ao todo, foram realizadas 3.500 entrevistas de forma online, distribuídas entre as cidades de Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia, com controle de cotas pelas variáveis sexo, idade, classe social e ocupação.
O universo inclui pessoas de 16 anos ou mais, das classes ABCDE, que moram nas capitais de interesse há pelo menos 2 anos. O trabalho de campo foi realizado de 2 a 27 de dezembro de 2025. O nível de confiança é de 95% e a margem de erro para o total da amostra é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Para os resultados desagregados por capital, a margem de erro pode variar de 4 a 6 pontos percentuais, de acordo com a cidade.
O estudo completo está disponível para consulta em: https://www.ipsos.com/pt-br/percepcoes-dos-internautas-sobre-desigualdade-de-genero-e-violencia-contra-mulheres