Pesquisa aponta limites da mobilidade social no Brasil

Pesquisa em dez capitais revela avanços e barreiras à mobilidade social, com dados sobre educação, renda, moradia e desigualdade.

Levantamento em dez capitais brasileiras mostra avanço expressivo na escolaridade entre
gerações, mas evolução não acompanha renda e condições de moradia.

A nova edição da pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades & Mobilidade Social revela um paradoxo que ajuda a compreender os desafios da mobilidade social no Brasil. Embora a maioria dos moradores de dez capitais brasileiras tenha alcançado um nível de escolaridade superior ao de seus pais, esse avanço ainda não se traduz, na mesma proporção, em melhores condições econômicas.

O levantamento, realizado pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen e a Ipsos-Ipec, mostra que 73% dos entrevistados afirmam ter estudado mais do que seus pais. Quando a comparação envolve renda, porém, esse percentual cai para 46%. Já em relação à moradia, 51% consideram viver hoje em condições melhores do que as da geração anterior.

“A educação continua sendo uma das principais ferramentas para ampliar oportunidades, e o avanço entre gerações é muito significativo. Entretanto, os dados mostram que estudar mais, por si só, não garante que essa trajetória se converta automaticamente em aumento de renda e melhores condições de vida. O desafio é fazer com que a qualificação educacional e profissional esteja conectada a oportunidades concretas de trabalho, geração de renda e inclusão produtiva”, afirma Vitor Hugo Neia, diretor geral da Fundação Grupo Volkswagen.

Escolaridade avança mais do que renda

A comparação entre gerações reforça uma tendência observada no país nas últimas décadas: os avanços educacionais ocorreram de forma mais acelerada do que as melhorias relacionadas à renda e à moradia.

Essa diferença contribui para ampliar a compreensão sobre o que significa, na prática, mobilidade social. O conceito vai além de um único indicador e envolve a capacidade de acessar melhores oportunidades de educação, trabalho, renda, habitação e qualidade de vida ao longo do tempo.

Nesse contexto, o aumento da escolaridade representa uma conquista importante, mas não encerra o percurso. O desafio está em criar condições para que a qualificação adquirida pelas pessoas possa ser convertida em oportunidades concretas de desenvolvimento econômico e autonomia.

Desigualdades ainda atravessam cotidiano

A pesquisa também lança luz sobre obstáculos que continuam limitando a mobilidade social nas cidades brasileiras.

Para 59% dos entrevistados, o número de pessoas em situação de fome e pobreza aumentou nos 12 meses anteriores à realização do levantamento. Embora essa percepção tenha diminuído em relação à edição anterior da pesquisa, ela segue predominante entre os moradores das dez capitais analisadas.

Ao serem questionados sobre quais ações poderiam contribuir para enfrentar esse cenário, 73% apontaram a garantia de emprego como prioridade para os municípios. Em seguida aparecem o fortalecimento ou a ampliação da assistência social, citado por 58%, e a garantia de renda mínima, mencionada por 50%.

A relação entre trabalho e renda também se manifesta na experiência cotidiana da população. Seis em cada dez entrevistados afirmaram ter realizado alguma atividade extra nos últimos 12 meses para complementar ou gerar renda, especialmente entre grupos em situação de maior vulnerabilidade econômica.

No orçamento familiar, a alimentação continua sendo a despesa de maior impacto, apontada por 87% dos participantes. Saúde e moradia aparecem na sequência, ambas citadas por 57%.

Em conjunto, esses indicadores mostram que a mobilidade social não depende apenas do esforço individual. Ela está diretamente relacionada às condições estruturais que ampliam ou restringem o acesso a oportunidades e influenciam a capacidade das pessoas de transformar conquistas em qualidade de vida.

Conhecimento para impulsionar a mobilidade social

Promover mobilidade social é o propósito que orienta a atuação da Fundação Grupo Volkswagen. Nesse processo, compreender as desigualdades e os fatores que influenciam as trajetórias das pessoas é fundamental para qualificar o debate público e contribuir para a construção de soluções mais efetivas.

Produzir e disseminar conhecimento faz parte desse compromisso. Pesquisas como a Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social ajudam a identificar avanços, tornar barreiras mais visíveis e oferecer evidências que apoiem a atuação de organizações, empresas, gestores públicos e demais atores comprometidos com a redução das desigualdades.

Mais do que retratar a realidade urbana brasileira, o estudo coloca uma questão central para o futuro da mobilidade social: como transformar avanços em educação e desenvolvimento de capacidades em oportunidades concretas de trabalho, geração de renda e melhoria das condições de vida?

Responder a esse desafio exige ações articuladas entre diferentes setores, capazes de conectar formação, inclusão produtiva e acesso a oportunidades, ampliando as condições para que mais pessoas possam avançar socialmente ao longo de suas trajetórias.

Sobre a pesquisa

A Pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades & Mobilidade Social busca compreender as percepções da população sobre desigualdade e mobilidade social em dez capitais brasileiras.

Foram realizadas 3.500 entrevistas online com pessoas de 16 anos ou mais, das classes ABCDE, residentes há pelo menos dois anos em Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia. A margem de erro para o total da amostra é de dois pontos percentuais, considerando nível de confiança de 95%. O levantamento reúne uma rodada sobre mobilidade social, realizada em dezembro de 2025, e uma rodada sobre desigualdades sociais, conduzida em julho de 2026.

A pesquisa é uma realização do Instituto Cidades Sustentáveis, Rede Nossa São Paulo, Programa Cidades Sustentáveis e Ipsos, com apoio da Fundação Grupo Volkswagen e do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades. Conta com cofinanciamento da União Europeia e tem como parceiros institucionais a Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP) e a Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (CNODS).