Inteligência artificial pode impactar 37 milhões de trabalhadores no Brasil, aponta estudo
Pesquisa desenvolvida mostra que o futuro do trabalho dependerá de políticas de qualificação, inclusão digital e uso responsável da tecnologia
A inteligência artificial já está transformando o mercado de trabalho em todo o mundo. No Brasil, esse movimento ganha contornos ainda mais complexos diante das desigualdades sociais, educacionais e digitais que marcam o país.
É nesse contexto que o estudo “IA no Mercado de Trabalho: Quem Ganha, Quem Perde — e Quem Fica para Depois”, desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen e a Fundação Arymax, propõe uma análise sobre os impactos da inteligência artificial no presente e no futuro do trabalho. A pesquisa revisou cerca de 100 estudos nacionais e internacionais e aponta que até 37% dos postos de trabalho no Brasil podem ser impactados pela IA, o equivalente a aproximadamente 37 milhões de trabalhadores.
Mais do que indicar riscos, o estudo chama atenção para uma questão central: os efeitos da inteligência artificial não serão distribuídos de forma igualitária. Sem ações coordenadas, a tecnologia pode ampliar desigualdades já existentes, afetando especialmente pessoas em situação de vulnerabilidade econômica, trabalhadores com menor acesso à qualificação e profissionais de ocupações mais expostas à automação.
Inteligência artificial e desigualdade no mercado de trabalho
Segundo o levantamento, cerca de 40% dos trabalhadores no mundo estão em ocupações expostas à inteligência artificial. Na América Latina, esse percentual varia entre 26% e 38% dos empregos, reforçando o desafio para países em desenvolvimento. No Brasil, a exposição à tecnologia se soma a um cenário preocupante: apenas 21,3% da população possui nível básico de habilidades digitais, o que limita o acesso às oportunidades criadas pela nova economia.
Além disso, o estudo aponta que cerca de 2 milhões de trabalhadores brasileiros podem enfrentar risco de substituição total de suas ocupações nos próximos anos. Isso não significa que a tecnologia, por si só, determinará o futuro do trabalho. Mas mostra que a forma como governos, empresas e sociedade civil se organizarem será decisiva para definir se a IA será um vetor de exclusão ou de inclusão produtiva.
“O futuro do trabalho na era da IA já começou, mas ele não será automaticamente inclusivo. Sem ações coordenadas, há um risco real de aprofundamento das desigualdades existentes”, afirma João Victor Archegas, coordenador de Direito e Tecnologia do ITS Rio e articulador do estudo.
A tecnologia também pode ser uma aliada da inclusão produtiva
Apesar dos desafios, a pesquisa também mostra que a inteligência artificial pode gerar oportunidades importantes. Estudos analisados indicam que a tecnologia pode aumentar a produtividade em até 14%, especialmente entre trabalhadores menos experientes. Esse dado revela um potencial relevante: com acesso, capacitação e orientação adequada, a IA pode ajudar a reduzir barreiras e ampliar oportunidades profissionais.
Para o diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen, Victor Hugo Neia, a questão central não é se a inteligência artificial vai transformar o mercado de trabalho, mas como o país vai se preparar para essa transformação. “Com políticas adequadas, a tecnologia pode ser uma aliada da inclusão produtiva e do desenvolvimento econômico”, ressalta.
Nesse sentido, a inclusão produtiva ganha ainda mais importância. Preparar pessoas para o futuro do trabalho envolve muito mais do que ensinar ferramentas tecnológicas. É preciso investir em habilidades digitais, competências socioemocionais, pensamento crítico, adaptação, criatividade e conexão real com oportunidades de emprego e renda.
Caminhos para um futuro do trabalho mais inclusivo
O estudo propõe um Plano de Ação para reduzir os riscos da inteligência artificial no mercado de trabalho e aumentar seu potencial positivo. Entre as recomendações estão a criação de um observatório nacional sobre IA e trabalho, com dados desagregados para orientar políticas públicas; investimentos em conectividade e acesso digital, principalmente em regiões vulneráveis; e a implementação de uma política nacional de requalificação profissional, com foco em habilidades digitais e socioemocionais.
O documento também destaca o papel do setor privado na construção de uma transição mais responsável. Empresas podem contribuir ao adotar estratégias que priorizem a complementação, e não a substituição, do trabalho humano, além de desenvolver programas contínuos de qualificação e códigos de conduta para o uso ético da inteligência artificial.
Para a Fundação Grupo Volkswagen, esse debate está diretamente conectado à sua missão de estimular a mobilidade social por meio da inclusão produtiva e do fortalecimento de pessoas e comunidades. Ao apoiar iniciativas voltadas à formação de jovens, ao desenvolvimento de habilidades e à conexão com o mundo do trabalho, a Fundação contribui para que mais pessoas estejam preparadas para participar de um mercado cada vez mais impactado pela tecnologia.
Uma agenda que depende de articulação
A pesquisa reforça que o futuro do trabalho será resultado das escolhas feitas hoje por governos, empresas, academia e sociedade civil. Sem políticas de qualificação, inclusão digital e regulação responsável, a inteligência artificial pode aprofundar desigualdades. Com ação coordenada, no entanto, pode se tornar uma ferramenta para ampliar produtividade, gerar oportunidades e impulsionar o desenvolvimento social e econômico do país.
Leia a reportagem sobre a Pesquisa IAÍ, que foi destaque no Valor Econômico neste link.