Estudo aponta protagonismo de mulheres no desenvolvimento econômico de territórios vulneráveis

Levantamento de Potencialidades & Inclusão Produtiva destaca desafios como informalidade, sobrecarga e acesso limitado a crédito e qualificação

O Brasil conta com mais de 10,4 milhões de empresas criadas e chefiadas por mulheres, segundo dados do Data Sebrae. Esse cenário é reforçado pelo estudo Potencialidades & Inclusão Produtiva, desenvolvido pela Fundação Grupo Volkswagen em parceria com o Instituto Toré, a partir do projeto Empreenda Social. A pesquisa revela que, em territórios de alta vulnerabilidade, os negócios locais são integralmente liderados por mulheres, evidenciando seu protagonismo econômico e social. Apesar disso, elas ainda enfrentam desafios estruturais relevantes, como a sobrecarga com os cuidados familiares, a informalidade e as barreiras de acesso a crédito e à qualificação profissional.

O levantamento foi realizado entre agosto e outubro de 2025 nos territórios do Jabaquara (SP), Montanhão e Pós-Balsa (São Bernardo do Campo/SP) e Região das Barras (Resende/RJ). No Jabaquara, por exemplo, 100% dos 18 empreendimentos mapeados são liderados por mulheres. Em Resende, elas representam 70% dos negócios identificados, com destaque para a expressiva presença de mulheres negras e pardas, evidenciando o papel central dessas empreendedoras na dinâmica econômica local.

Empreender não livra essas mulheres da sobrecarga, já que além de serem responsáveis pelo sustento financeiro, elas acumulam ainda os cuidados no âmbito familiar, como afazeres domésticos e cuidado com os filhos. Em alguns dos territórios analisados, foi identificado que mais de 80% das pessoas que sustentam sozinhas seus lares são mulheres, enquanto até 45% delas acumulam também a responsabilidade exclusiva pelo cuidado de outras pessoas.

Apesar dos desafios, o levantamento aponta um forte interesse por capacitação e desenvolvimento profissional. Em Resende (RJ), por exemplo, mais de 90% dos empreendedores demonstraram interesse em treinamentos nas áreas de gestão, vendas e finanças. Já no Pós-Balsa (SBC/SP), 86,9% manifestaram interesse em cursos técnicos e 96,4% desejam aprimorar habilidades digitais.

Os dados evidenciam um potencial significativo de desenvolvimento econômico local liderado por mulheres, que pode ser ampliado por meio de políticas públicas e iniciativas voltadas à qualificação, ao acesso a crédito e ao fortalecimento das redes de apoio. “Esses territórios são prioritários para nós da Fundação Grupo Volkswagen e revelam a força do empreendedorismo feminino na economia local. Com iniciativas como o Empreenda Social, projeto voltado ao empreendedorismo, à gestão e à geração de renda, buscamos fortalecer esses negócios e apoiar seu desenvolvimento sustentável”, complementa Victor Hugo Neia, diretor geral da Fundação Grupo Volkswagen.  

O estudo reforça a importância de iniciativas integradas que articulem inclusão produtiva, proteção social e equidade de gênero, contribuindo para o desenvolvimento de comunidades mais resilientes e economicamente ativas.

Mobilidade social

Mesmo com todo o empenho e esforço dessas mulheres, ainda assim, as barreiras estruturais dificultam a consolidação desses negócios. A informalidade é predominante em diversos territórios, índice esse que atinge a 46,7% dos empreendimentos em Resende, e apenas 10% dos empreendedores possuem reserva financeira.

O cenário é agravado por altos índices de vulnerabilidade social. Em regiões como o Pós-Balsa, mais de um terço das famílias vivem em extrema pobreza, e a presença em programas sociais, como o Cadastro Único, é expressiva em todos os territórios analisados.

O acesso a essas oportunidades tem potencial transformador, como mostra a trajetória de Tia Rosa, participante do Projeto Tração, outra iniciativa da Fundação Grupo Volkswagen desenvolvida em seus territórios prioritários.

“Participar do Projeto Tração transformou a forma como enxergo e conduzo o Núcleo Cafezais, iniciativa que lidero no bairro Montanhão, em São Bernardo do Campo. Com as mentorias e formações da Fundação, adquiri conhecimentos que antes não tinha, especialmente em gestão, documentação e organização interna. Hoje, tenho mais clareza sobre o meu papel na comunidade e me sinto mais preparada para tomar decisões”, completa.